O melhor jogador de todos os tempos é uma mulher. A brasileira Marta Vieira da Silva, ou simplesmente Marta, foi o primeiro atleta de futebol a ganhar por cinco vezes o título de melhor do mundo. Bom para o futebol, bom para a sociedade como um todo. Embaixadora  do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, Marta vem buscando abrir espaço para o futebol feminino profissional no Brasil e sabe que, além de jogar bola, pode utilizar o seu talento e carisma para dar visibilidade a diversas causas sociais, muitas delas com as quais a própria jogadora teve de lidar em sua vida. De uma infância pobre no interior de Alagoas, a uma carreira de início difícil até chegar ao auge do rendimento. Para Marta, os desafios estão aí para serem superados. E ela acredita no poder do futebol como ferramenta para transformação social. É por isso que aceitou o convite para ser madrinha da streetfootballworld.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista que a atleta nos concedeu:

sfwBrasil –  Como foi o início da sua carreira? Você sofreu preconceito por ser mulher e gostar de jogar futebol?

Marta – Muito difícil. Comecei com sete anos, na minha cidade. Como não tinha meninas que gostavam de futebol, jogava com os meninos. Dali, fui jogar futsal com o time da escola e participei de torneios em cidades vizinhas. Mais tarde, com 11 anos, fui para o CSA de Dois Riachos (AL). Em todas essas equipes, jogava com meninos. Era a única garota entre eles. Eu sofri muito preconceito, ouvi muita besteira. Alguns diziam que eu não podia jogar por ser mulher. Outros falavam que eu era macho. Isso machucava muito. Eu era criança e ouvia aquilo tudo. Mas eles me aturavam porque, dentro de campo, eu fazia a diferença. Fora isso, tinha a proteção dos meus primos, que jogavam no mesmo time e me ajudavam, davam bronca nos outros. Eu também sabia me defender.

 

sfwBrasil – Como você enxerga o cenário do futebol para o desenvolvimento social no Brasil e no mundo?

Marta – Na minha opinião, usar o futebol como uma ferramenta para o desenvolvimento social  um grande passo para transformar a realidade de meninas e meninos em todo o mundo, principalmente no Brasil. O futebol tem um poder gigantesco e saber usar toda essa paixão para criar oportunidades aos jovens é algo muito precioso, que me dá um orgulho enorme de fazer parte disso. Dentro de campo, muitos valores da vida humana podem ser tratados, como a igualdade de gênero, o respeito às diferenças, o protagonismo juvenil e muito mais.

Marta Vieria

sfwBrasil – Você é a jogadora mais premiada de todos os tempos e foi destaque no ranking da revista Época sobre as pessoas mais influentes do país. Como é ser reconhecida mundialmente dessa maneira? Você acha ou espera que o seu destaque possa influenciar e encorajar outras mulheres que pretendem seguir carreira no futebol?

Marta – É a realização de um sonho. Eu trabalhei muito para conquistar cada passo na minha vida, na minha carreira como profissional do futebol. Nada veio por acaso. Ser eleita cinco vezes como a melhor jogadora do mundo me dá muito orgulho e alegria, pois é um feito inédito no esporte. Eu nunca imaginei que fosse ser reconhecida dessa maneira, fazendo o que eu mais amo na vida, e conseguindo atingir todos os meus objetivos pessoais e profissionais. O mais bacana disso tudo é poder influenciar outras meninas que também têm esse sonho no futebol, mas às vezes sofrem tanto preconceito que acabam desistindo pelo caminho.

Marta Vieria. foto:Adriano Facuri_resize

sfwBrasil– O futebol feminino não é valorizado no Brasil, diferentemente de outros países no mundo. A quê você atribui essa realidade?

Marta – Vários aspectos influenciam para que o futebol feminino não seja tão valorizado no Brasil quanto é lá fora. Um deles é o preconceito, que a gente sabe que existe em todos os lugares, mas aqui em nosso país é muito forte e contribui para que cada vez menos meninas se interessem por futebol. A falta de investimento das empresas é outro ponto que precisa ser falado. Aqui no Brasil, gasta-se milhões de reais em patrocínio dos clubes, direitos de televisão e propaganda comercial no futebol masculino, enquanto as mulheres precisam lutar muito para conseguir organizar um simples torneio. Tem alguma coisa errada nessa história, a diferença é muito grande, muito explícita. É preciso olhar com carinho para o futebol feminino. Eu tenho certeza que é um ótimo produto para a mídia, empresas e investidores.

 

sfwBrasil – Na sua opinião, é possível reverter esse cenário?

Marta – Sim, existe esperança. Temos ótimas jogadoras atuando e muita força de vontade. O governo tem dado atenção aos nossos pedidos e outras organizações, como a streetfootballworld e a Redeh, trabalham intensamente para melhorar isso. Ações como essas do espaço Futebol para a Igualdade ajudam e muito a melhorar esse cenário.

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