Referência nacional em esporte e educação, o professor João Batista Freire coleciona diversas publicações e títulos na área, além de projetos socioesportivos em várias regiões do Brasil. Em entrevista exclusiva para o nosso boletim, ele fala sobre os desafios e as conquistas do esporte como ferramenta para o desenvolvimento social.

Como o senhor avalia o esporte como ferramenta de transformação social no contexto brasileiro?

O esporte tem um apelo fortíssimo. Se não fosse assim os urubus da especulação não estariam voando o tempo todo sobre o esporte, especialmente sobre o futebol. As corporações mercantis, se pudessem, monopolizariam completamente o futebol, tal a riqueza a ser explorada. Porém, assim como dá lucro financeiro, o esporte também é rico para coisas boas, como para aproximar pessoas, para desenvolver valores e virtudes, para quebrar preconceitos, para sensibilizar. A corrida é difícil e sei que estamos, nós da educação, perdendo para os urubus da especulação. Se qualquer um de nós, de uma ONG boa, séria, pisar na bola, errar um cálculo de prestação de contas, etc., seremos triturados pelos políticos, pela imprensa e pelos governos. Porém, os especulares pisam na bola o tempo todo, cometem delitos terríveis e nada acontece com eles. Agora suspenderam o Blatter e o Valcke por suspeitas de vigarice, mas quantos anos eles ficaram fazendo isso? No mundo do esporte os reacionários e os vigaristas são quase totalmente blindados.

 

Como o senhor avalia a atuação do governo brasileiro para a promoção do esporte educativo?

Hoje o esporte educacional depende muito mais de particulares e do terceiro setor do que dos governos. Os governos governam para os governos e não para a população, com raríssimas exceções. Quando muito, algumas verbas saem do governo para projetos. Mesmo assim, quem mais tira dinheiro do governo para projetos de esporte é quem menos precisa, como os clubes profissionais de futebol. Não há sequer uma política para o país, quanto mais uma política de esporte para o país. Um governo lúcido faria, não só um plano sério de educação para o Brasil, como um plano para educar esportivamente todos os brasileiros. No entanto, isso não é prioridade. O Ministério do Esporte é moeda de troca, aquele pelo qual a sociedade não se interessa, portanto, pode ser de qualquer cabo eleitoral. Ainda está para nascer o governo que vai fazer nascer um projeto de esporte educacional.

 

No encontro que a Comunidade de Aprendizagem realizou em Fortaleza (outubro, 2014), o senhor teve a oportunidade de conhecer e participar intensamente das atividades. Qual é a sua impressão sobre o coletivo?

No caso da Comunidade de Aprendizagem, pelo que vi em Fortaleza, as pessoas estão bastante compromissadas. Não sei como é o dia a dia da rede, se as pessoas se comunicam bastante ou se afastam. Porém, naquele encontro, achei que havia compromissos sólidos. A streetfootballworld Brasil tem um apelo emocional forte, lida com pessoas muitas vezes desassistidas, vitimadas por sistemas injustos e isso junta as pessoas com mais facilidade. Eu gostaria de poder ensinar mais por rede, mas ainda sinto que os encontros presenciais ganham longe dos encontros à distância.

Leave a Comment